quinta-feira, 12 de junho de 2008

“Afinal, quem era mais ou menos sofista?”

Palavras-chave: influência grega, justiça, ideologia.

Resumo
Neste artigo examinamos o pensamento de Sócrates, Platão e dos Sofistas, observando suas idéias sobre a vida civil, a justiça e a lei. Enquanto Sócrates e Platão são idealistas e conservadores em relação ao conhecimento, à ética, e à justiça, defendendo a aristocracia, os Sofistas adotam uma teoria relativista do conhecimento, da ética e da justiça e os valores da democracia. Examinamos as bases ideológicas e políticos das críticas de Sócrates e Platão aos Sofistas e a contribuição destes para a análise dos paradigmas dogmáticos na Filosofia, na Ética, na Política e no Direito.


A proposta desta reflexão acerca do artigo “Afinal, quem era mais ou menos sofista?”, escrito pelo professor e mestre em Filosofia Política Isaar Soares de Carvalho é apresentar de forma sucinta o embate entre o pensamento de Sócrates e Platão contra o pensamento sofista, este ultimo notoriamente relativista. Para tal tomamos como base não somente a questão epistemológica em si, mas abordamos, sobretudo do ponto de vista político.


Ao iniciar nossa reflexão gostaríamos de tratar das tradições e contradições sobre os sofistas, como dito pelo professor Isaar Soares em seu artigo “a história da filosofia apresenta visões contraditórias entre si, no que diz respeito aos sofistas”, temos os defensores da chamada linha de Platão e Xenofonte que colocam os sofistas como um verdadeiro perigo para a cidade só que “sofista” originalmente não possuía esse cunho pejorativo, essa pejoratividade se alarga ainda mais com Xenofonte quando este atribui o sinônimo de “prostituto” aos sofistas, porque estes como já é sabido “vendiam" ou melhor “cobravam” por seus ensinamentos e este fato não era visto com bons olhos por Socráticos – Platônicos que consideravam tal atitude pouco louvável.
Recentemente vemos esta “linha” Socrática – Platônica perder força com a apresentação de uma nova visão sobre os sofistas, a indagação é será que os sofistas eram meramente “prostitutos” havidos por dinheiro? A resposta que o autor W.K.C. Guthrie nos coloca é que não, pensar desta forma em relação aos sofistas que contribuíram tanto para áreas como a educação e a democracia seria no mínimo uma forma de concepção reducionista.


Guthrie coloca que os sofistas apenas não procuravam o mesmo rigor em todas as discussões, Aristóteles, por exemplo, em muitos casos estava mais próximo ao pensamento sofista do que propriamente de Platão, na Ética a Nicômaco o mesmo cita:


“... Não devemos procurar o mesmo rigor em todas as discussões indiferentemente, como também não podemos exigir isso nas produções das artes. As coisas belas e as coisas justas que constituem o objeto da política dão margem a tais divergências, a tais incertezas, a ponto de termos acreditado que elas existiam somente por convenção, e não por natureza...” 1, e este não é, pois um típico pensamento sofista?


Guthrie ainda argumenta dizendo que Aristóteles se desfaz ao tratar da ética os paradigmas e leis morais existentes por si mesmos, esta idéia de “relatividade” adotada pelo sofistas vem a contribuir muito para o direito e a democracia. Então por que a querela entre os Socráticos – Platônicos e os sofistas? Para responder a esta indagação se faz importante esclarecer que o motivo desta querela não era somente de caráter epistemológico e moral, mas, indubitavelmente político e ideológico, sendo os sofistas defensores de uma democracia e Platão defensor de uma “República Ideal” (aristocracia), na qual os governantes deveriam ser filósofos. O dialogo entre os dois não podia se dar de outra forma que não por uma troca de farpas.


Segue abaixo uma visão um pouco mais detalhada desta contenda;

Platão, ateniense nato, era de família aristocrática e abastada, e tendo Crítias um dos trinta tiranos que assumiram o poder em 404 a.C. (ao fim da guerra do Peloponeso), como primo de sua mãe, discordava tanto da tirania de Crítias quanto da democracia de Péricles. Esta sua visão pessimista da democracia em grande parte deve-se ao fato da condenação de seu mestre e amigo Sócrates em 403 a.C. por um governo democrático.
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1. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, I, 3, apud Paul RICOUER, Interpretação e Ideologias, p.63.


Na República, Platão “aceita” seis formas de governo que se subdividem em duas; as Ideais e as Reais ou Corrompidas. Na ordem estariam as Ideais citadas como Monarquia e Aristocracia diferindo-se uma da outra somente em relação ao número de pessoas que governam e as Reais ou Corrompidas encontram-se a Timocracia (Lacedemônia), Oligarquia, Democracia e Tirania, Platão considera a democracia “a pior da formas boas e a melhor das formas más”. O que é realmente importante destacar aqui é que: para Platão o homem aristocrático é “bom e justo” e homem democrático é “licencioso”, acreditando que todas as regras podem ser transgredidas, sendo assim, Platão tinha motivos suficientemente claros para ir contra os sofistas que por sua vez eram democráticos, relativistas e em sua grande maioria estrangeiros.

Conclusão
Respondendo a pergunta quem era mais ou menos sofista, podemos concluir que o fato de Platão promulgar um governo aristocrático contribuiu enormemente para sua visão dos sofistas. Qual seria sua opinião se o mesmo tivesse uma visão democrática de governo? Trata-se não somente de uma questão epistemológica, mas também de uma questão ideológica, a posição que Platão adota em relação aos sofistas está impregnada por sua aristocracia latente.


Reflexão proposta pelo professor Isaar Soares de Carvalho
Trabalho de aproveitamento do terceiro semestre do curso de filosofia do Centro Universitário Assunção (UNIFAI) escrito por Rafael Caminhas

3 comentários:

Andreza disse...

Na verdade queria mesmo saber segundo o pensamento sofistico, se o homem pode alcançar o conteúdo verdade? E o da justiça ?

isaarsoares disse...

Para ler meu artigo integralmente, acessem: www.metodista.br/.../afinal-quem-era-mais-ou-menos-sofista/

Ao meu ver, o Rafael cita demais minhas palavras, sem as devidas aspas, além de mutilar o artigo.
Poderia ter conversado comigo antes...

isaarsoares disse...

Os sofistas entendiam a verdade como algo relativo e subjetivo, contra a conceituação ideal socrática e platônica. A verdade diz respeito aos interesses de cada um e, portanto, é vista de forma pragmática.
Quanto á justiça, Trasímaco diz que ela consiste no interesse dos mais fortes. Cálicles afirma que a lei foi criada pelos mais fracos, incapazes de competir, e que na sociedade, como na natureza, vencem os mais fortes. Já Antifo afirmava que num tribunal o homem inocente poderia ser condenado, por não ter a habilidade da oratória, enquanto um infrator da lei poderia sair forro. E a lei, segundo ele, ordena muitas coisas que são contrárias à natureza, não garantindo a punição dos infratores, como se disse, mas a natureza sempre pune os que desrespeitam suas leis. Antifo antecipou princípios que estão em declarações famoasas dos direitos humanos, como a de que todos somos iguais por natureza, "respiramos o mesmo ar, pelo nariz e pela boca mas a lei", e que os gregos, devido à sua xenofobia, eram bárbaros, enquanto chamavam aos outros povos por esse adjetivo, de forma preconceituosa. Assim, as noçoes de justiça dos sofistas são variáveis, como a realidade jurídica, e bem críticas.